Joseph-François-Pierre Sanchis, nasceu em Perpignan, França, em 16 de dezembro de 1928, falecendo em Belo Horizonte, Brasil, em 07 de maio de 2018. Formado em Teologia, na Universidade de Estrasburgo, em 1954, dedicou-se durante algum tempo ao estudo da literatura cristã dos primeiros cinco séculos. Seu Mémoire para obtenção do Diplome da então École Pratique des Hautes Études, Ve section (Sciences Économiques et Sociales) foi Liturgie en conserve et liturgie vivante: le cas de la Missa do Morro, Brésil, que trata das repercussões, na sociedade baiana, de uma mudança na expressão musical da liturgia católica. Brasil, relevante espaço de metamorfoses culturais, religiosas que ajudaram/ajudam a construir sua história. Depois de ter seguido, em 1971, o Curso Superior de Língua e Civilização da Universidade de Lisboa, realizou várias pesquisas em Portugal. Entre as mais importantes, contam-se a realizada em 1972 sobre as repercussões do fenômeno da emigração numa aldeia de Beira Baixa e a realizada em 1973 sobre a religiosidade popular, as festas e as romarias portuguesas. A primeira, resultou na dissertação de mestrado em Antropologia defendida em 1972, na Université de Paris VII, Unité d’Enseignement et de Recherche d’Anthropologie, Ethinologie et Science des Religions; enquanto a segunda, resultou na tese de doutorado defendida em 1976, na École Pratique des Hautes Études/Université de Paris X sob o título Arraial, la fête d’un peuple: les pèlerinages populaires au Portugal. De volta ao Brasil, em 1976, quando se tornou professor de antropologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o campo religioso continuou sendo o seu terreno privilegiado de pesquisa. Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), membro da diretoria e presidente do Instituto de Estudos da Religião (ISER), Rio de Janeiro, foi também coordenador do Grupo de Estudo do Catolicismo do ISER – mais tarde, Grupo de Estudo do Sincretismo –,  realizando pesquisas sobre o catolicismo popular, as romarias mineiras, a renovação litúrgica do ponto de vista etno-musical, as relações entre religião e política, uma possível religião civil no Brasil, as relações da igreja com o estado brasileiro, especialmente com o exército, e sobre o movimento negro católico. Em 1991, fez pós-doutorado no Groupe de Sociologie des Religions du Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Mais recentemente, abordou a globalidade do campo religioso brasileiro na sua relação com a modernidade, com as inculturações e com o sincretismo. Aposentado como professor da UFMG, em 1997, recebeu o título de Professor Emérito dessa universidade em 1999. Coordenou, pelo lado brasileiro, um grupo internacional de pesquisa (CNPq/IRD – Institut de Recherche pour le Développment) sobre as modalidades contemporâneas de criação de identidades sociais através da religião.

            Para Claude Lévi-Strauss, a antropologia é uma vocação, “uma das raras vocações autênticas”, uma vez que “podemos descobri-la dentro de nós mesmos sem nunca a termos aprendido”. Nada mais apropriado para caracterizar a atuação de Pierre no ofício de antropólogo. Catalão de origem, desde cedo viveu a alteridade e as possibilidades de trânsito entre diferentes códigos culturais. O encontro, a descoberta e a compreensão do outro, do diferente, são dados a ele desde a sua mais tenra infância e trabalharam na direção de aguçar a sua curiosidade, levando-o ao exercício do ofício. Ofício que o impulsionou a trilhar tal como um peregrino em romaria ou um estrangeiro em viagem “os sendeiros, atalhos e encruzilhadas” da vida em sociedade, nas “tramas” da história. Pierre tornou-se um “antropólogo brasileiro” após peregrinar pelas procissões portuguesas, muito embora nunca tenha deixado de ser um francês, bien sûr. Como os grandes antropólogos – et pour cause –, Pierre era, simultaneamente e a um só tempo, desenraizado, viajante atento, “pesquisador de nascentes, armado de sua vareta”, como ele mesmo se declara, nos guiando através de suas instigantes análises do universo religioso pelos diferentes e diversos mundos culturais que compõem a vida em sociedade, guiando-nos no desvendamento, na “espessura da história”, de como e de que modo uma sociedade constrói um discurso essencial sobre si mesma, com todas as tensões, conflitos e ambiguidades que lhe são inerentes e constitutivas. Assim, em Pierre se tem, em toda sua pujança, o antropólogo dialogando com a história, articulando sincronia e diacronia, o evento e a estrutura, a tradição e a modernidade, as representações e as práticas. Esse é o sólido humus fertilizante dos temas que definem sua antropologia, da qual somos todos tributários: articulação de sentidos, razão dialógica e perspectiva dialética.

          A obra de Pierre é aquela de um mestre, a prova cabal de como é possível o exercício escrupuloso do ofício. Através dele, vemos realizar-se em toda sua plenitude a antropologia tal como definida pelo historiador Alphonse Drupont e citada por ele mesmo na conclusão de seu Arraial: festa de um povo: as romarias portuguesas: “A antropologia, se o espetáculo lhe pertence como atelier das tensões em ato, deve atingir os bastidores, lá onde a oposição se dissolve na consciência elementar de um comum destino, sejam quais forem as representações mais ou menos elaboradas, uma idêntica certeza dos fins últimos”.

             Cher maître, merci. Merci pour tout! Merci à la vie!

            A você, todo o nosso carinho e toda a nossa gratidão.

 

Léa Freitas Perez – coordenadora do Centro de Estudos da Religião Pierre Sanchis/UFMG

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